Um vislumbre - Capítulo 2

Quando foi que deixei de sentir fome?

Estava, há pouco tempo, entediada com os meus afazeres. Me entupi de tarefas e mais tarefas no trabalho, em casa e na minha igreja. Me preenchi com listas de desejos de outras pessoas, enquanto eu só estava ali.

Foi então que eu o vi, depois de tanto tempo. Parecia que tudo o que passamos tinha sido só um velho sonho da juventude. Após a sua promoção na empresa de engenharia, Davi se mudou para os Estados Unidos, e voltou agora para passar o feriado com sua família. Ao menos, era assim que eu explicava aquela presença inesperada. Ele parecia o mesmo, até o aceno que costumávamos ter ao se ver, trouxe o frágil resquício do que eu me lembrava daquela época.

-E aí Mônica…quanto tempo…-disse, desviando o olhar imediatamente para os seus pés, sorrindo de canto, como quem esconde mais do que revela. Estranho. Há 3 anos, neste mesmo momento, estaria analisando cada centímetro de sua reação. Seu cabelo curtinho, a bermuda longa e preta desbotada e uma camisa branca me remetem à lembrança de quando nos víamos. Ele não mudou nada. Mas o seu olhar refletia algo novo, como se a memória da nossa última conversa (ou discussão, dependendo de quem a relembra), pudesse denunciar um singelo sentimento desconhecido. Ainda absorta em meus pensamentos, percebi que mantive silêncio por um tempo maior do que eu imaginava. Ele está aqui. Tentei afastar toda expectativa que tinha imaginado para esse reencontro e me recompus. Alinhei o tecido da minha saia, respirei fundo e, forçando um sorriso, o respondi de forma simpática e o mais natural possível.

-Ah, oi…Faz tempo mesmo. A última vez que conversamos, você ainda não tinha tanto cabelinho branco nesse lado aqui - falei brincando, na tentativa de quebrar o gelo.

Ele sorriu. E antes de dizer qualquer outra coisa, alguns amigos que tínhamos em comum o chamaram. Desviou sua atenção para outro lado, onde eu não estava. Que alívio. Estranho. De novo. Quando conversávamos, minha meta interna era estar ao seu lado. Não importava qual lado, eu só queria estar lá. Dessa vez, foi diferente. Eu não me importava, e para ser bem honesta, esperava não estar. Isso foi um alívio um tanto estranho. Mas, só então pude me dar conta de que o meu coração começou a acelerar, não por saudade, mas pelo estranhamento. Ele estava ali. Real. E diante disso, na realidade a qual estava presente, eu me lembrei. Foi nesse instante em que percebi quando a fome cessou.

As nossas discussões me revisitaram. As noites sem dormir em vigília, as declarações sussurradas ao Senhor, as orações interruptas. As promessas ao meu primeiro amor e a fome pela presença do meu Amado. Onde foram parar todas essas provas de amor? Meu coração não ardia só pelas discussões teológicas, mas pelo anseio em encontrar o meu Criador. “Lance aos pés da cruz”. Essa era uma das minhas frases favoritas, e a repetia a quem estivesse passando por um período de solidez e frieza. Que irônico. Mal sabia eu que também precisaria, mais tarde, do mesmo conselho. Foi quando me dei conta de que meus joelhos pararam de alcançar os pés de Jesus quando permiti que minhas frustrações pesassem mais que o meu primeiro amor.

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